Ano passado, eu emagreci 🙃
A hipocrisia, a disforia e uma dose de autofagia
Este texto pertence ao editorial Diário de conexões.
Este ensaio em particular também é a continuação de uma série:
De repente, uma dor discreta, sólida, tipo um copo de concreto fresco derramando no fundo do estômago, até endurecer a carne flácida do fundo da barriga. Um amargor nos dentes, a percepção de que quase todas as pessoas gordas estavam magras ou emagrecendo. O mundo girou mais rápido, algo lá dentro doeu. E não, não foram os corpos magros que doeram, mas o brilho que brotou nos olhos dos ex-gordos. O brilho não existia porque estavam magros, mas porque a sociedade parou de tratá-los com tanto ódio.
Salvo o emagrecimento por motivos de saúde, as pessoas não emagrecem por uma vontade própria genuína, isolada, mas porque o mundo funciona em esforço coletivo de punição dos corpos gordos. Em algum momento, viver sendo gordo se torna insuportável. Para uns é na infância, para outros é tarde na vida. Mas tem um momento ali que é muito muito duro ser uma pessoa gorda.
Às vezes, é todos os dias.
Fazer dieta é lembrar o tempo todo de que o corpo é objeto de aversão. Cada refeição é uma restrição, cada prato que não sacia a fome é um lembrete de que a carne que habito é errada. Eu moro dentro do meu corpo, eu sou o meu corpo. Porra. Ninguém fala da imensa violência que cometemos contra nós mesmas com esse lembrete constante de ser uma pessoa errada.
Ninguém é gordo porque quer, blablablá. Mas deixar de tentar emagrecer tornou-se uma opção que eu não sabia que existia até uns poucos anos atrás, quando comecei essa série de textos aqui na newsletter. Entre fazer dietas e passar meses me sentindo rejeitada pelo mundo dia após dia, eu decidi não me odiar. Funcionou por alguns anos; os anos em que eu me escondi atrás dos livros e cadernos, evitando a vida lá fora. No momento em que comecei a tratar a depressão, a vontade de estar lá fora no meio dos outros, voltou. Eu também retomei ao trabalho no escritório, o que naturalmente me faz estar mais na rua entre outros seres humanos. Então, a velha sensação de ser inadequada retornou. Mais potente do que nunca.
No livro de ensaios sobre imagem, Modos de ver, John Berger escreve um ensaio inteiro dedicado à retratação de mulheres na história das pinturas e fotografias. Ele contextualiza, antes de explicar sua visão, a questão do existir duplo das mulheres (os destaques em negrito são meus):
A mulher precisa se vigiar o tempo todo. É acompanhada quase continuamente por sua autoimagem. Andando pelo quarto ou chorando a morte do pai, é quase inevitável que ela se veja andando ou chorando, como uma espectadora de si mesma. Foi ensinada e persuadida desde a primeira infância a se examinar o tempo todo, do modo mais escrupuloso. Assim, ela passou a considerar a examinadora e a examinada que traz em si como os dois componentes, sempre distintos, de sua identidade enquanto mulher. Ela precisa examinar todo o seu ser e todos os seus atos, pois o que ela aparenta para os outros e, em última instância, para os homens é crucial para o que normalmente é tido como uma vida bem-sucedida. A percepção daquilo que ela é em seu íntimo é suplantada pela noção do que ela é tal como os outros a percebem.
(John Berger em Modos de ver)
Ser mulher é viver a dicotomia entre sentir a si mesma, dentro do corpo que habita, e ser superconsciente de como as pessoas a veem. Berger ainda explica que, no inconsciente coletivo, as mulheres se apresentam conforme desejam ser tratadas. Ainda que essa não seja a verdade dentro dela, é assim que o mundo externo a percebe. Se uma mulher age com violência, para a sociedade ela aparenta que pode ser tratada com agressividade. Assim como se essa mulher é delicada e obediente, o mundo externo percebe que ela deve ser cuidada. É claro que isso tudo bate em cheio na questão da gordofobia. O corpo gordo é visto como o corpo de alguém que não dá bola para si; e é assim que as pessoas, inconsciente e coletivamente, tratam o ser humano dentro do corpo gordo. Como um não-humano. Não só as mulheres, mas principalmente as mulheres.
O movimento body positivity parecia estar desmanchando essa construção, mas nos últimos anos nós voltamos umas vinte casas nesse tabuleiro.
Viver uma vida dupla começou a ficar insuportável. Eu entendi que me aproximar da imagem domesticada do corpo menos gordo era questão de sanidade mental. É enlouquecedor lidar com isso dia após dia; tão horrível quanto fazer dieta e ser lembrada do ódio da sociedade.
Eu nunca tomei remédio para emagrecer e nunca fiz nenhuma “dieta louca”. O termo “dieta louca” é ótimo, porque é exatamente por isso que nunca dei cabo de uma. As únicas vezes em que eu emagreci na vida adulta foi virando uma chaminé de cigarro, o que nunca é uma boa opção. A única alternativa restante era tentar, de novo, uma dieta restritiva com nutricionista e, sinceramente, eu não queria voltar a ser lembrada em todas as refeições que as pessoas odeiam o meu corpo. Quando o médico me aconselhou usar uma das canetas mágicas, eu fiquei um tanto chocada. Metade de mim estava esperando isso, mas a outra metade queria que ele dissesse que eu não precisava. Que não era o meu caso. Entretanto, eu disse sim para caneta mágica, ainda meio incrédula e duvidando de que iria funcionar.
Pois bem, funcionou (está funcionando, eu ainda estou no tratamento) e eu tive poucos efeitos colaterais. Uma sorte do diabo.
Você pode mal-dizer a caneta milagrosa o quanto quiser. Podemos problematizar os efeitos de longo prazo, o custo, a loucura do emagrecimento voltando. É tudo real. Mas, honestamente, eu cansei. Emagrecer sem sofrer está sendo ótimo, me parece que ter um corpo menos arredondado combina com a minha personalidade. Mas as pessoas se incomodam com o gordo emagrecendo fácil, sem dieta, sem passar fome... sem esforço.
De repente entrei em uma calça três números menor. Eu secretamente sonhava acordada com esse dia. Mas quando ele chegou, eu despiroquei. Dentro do provador, arranquei a calça como se estivesse pegando fogo. Me senti tão longe de mim, tão longe de minhas convicções. A sensação de que “a sociedade ganhou” foi forte. Fraca pela potência do momento, deixei a loja e continuei usando calças que vão despencando, cintos que já estão largos demais e camisetas que vestem como vestidos.
No passado, acreditava-se que o mal vinha de fora para dentro. Doenças e pestes eram punições divinas, kármicas. Hoje parece existir um consenso de que a punição do corpo vem de dentro da gente, através de mecanismos culturais e sociais, onde a culpa mora na nossa cabeça. Ainda somos punidos pelo mundo externo, não se engane. Mas por que deixar-se punir apenas pelo outro? Por que não punir a si mesmo também? Vivemos em permanente estado de loucura.
Foi nas palavras de um autor trans, Paul Preciado, que encontrei a definição do que estava sentindo. Em um ensaio sobre disforia de gênero:
Nas sociedades modernas, a alma instala-se primeiro como um implante vivo na carne, e, em seguida, à medida que cresce, é esculpida como um bonsai, através de treinamento e castigo repetitivos, invocações linguísticas e rituais institucionais, que visam reduzi-la a uma determinada identidade. Algumas almas desdobram-se mais que outras, mas não há almas no jardim dos vivos que não sejam efeito de implante e poda.
(Paul Preciado em Dysphoria mundi: O som do mundo desmoronando)
Se encontrar dentro de um novo corpo causa uma certa disforia. Dói. São muitos anos habitando uma pele que toma formas novas, desengonçadas, ossos que surgem e espaços vazios onde antes pulsava sangue. A pessoa no espelho parece vinda do futuro ou de um mundo paralelo. Há uma sensação de uncanny valley, me sinto falsa, feita de pele de mentira e sonhos febris.
Eles chamam de deficit calórico o que eu chamo de autofagia. Emagrecer é comer a si mesmo. Mas não um comer comum, é um comer às cegas, sem saber o que é digerido, com muita pressa. O corpo come a si mesmo, você vai sumindo, sumindo.. Para onde foi aquilo tudo que era você?
Engoliu-se.
Por hoje é só.
Beijos, abraços e toda forma de afeto.
Vanessa Guedes.
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Eita, que texto bom e espinhoso! Eu ainda (ou já) vivo na doideira de olhar pra mim e me ver como eu me imagino, com um autoamor meio rebelde. É o bom de estar chegando aos 60. Mas também tem isso: chegar aos 60 e além de gorda, ser velha kkkkk... o que tem atrapalhado minha relação idílica comigo mesma é que o combo idade + peso ferrou com meu joelho, e às vezes eu ando de um jeito bem deselegante rsrs... Paciência. O bom é que estou me exercitando. E é no Sesc, onde todos os corpos são vistos com um pouco mais de generosidade. Espero que você fique bem. E que seus joelhos talvez não te amaldiçoem no futuro como os meus.
Teu texto é muito impactante, Vanessa. Me fez pensar em todas as vezes que a sociedade vence, tenho pensado tanto nisso. Um beijo grande!