Confissões de uma necromante

Primeiramente, nunca mais vou beber na vida. 

Segundamente, bom domingo.

Aviso: eu sempre digo que essa newsletter é bem clara no seu título. Segredos. Em. Órbita. Eu sou uma pessoa muito perturbada (quem não é?) e você está lendo coisas aqui que eu teoricamente não teria coragem de publicar. Existe um motivo para isso.

Necromante

Quando eu tinha uns nove anos de idade, um moleque (mais ou menos da mesma idade), com quem eu brincava, faleceu. A imagem do corpo dele no caixão é uma das lembranças mais nítidas que eu tenho da infância. Lembro do formato do seu nariz, sua boca, o corpo anormalmente estufado, o cabelo cortado rente à cabeça, o cheiro dos cravos que se espalhavam por todos os cantos para onde eu olhasse na sala do velório. A voz do meu primo (jovem adulto), que era vizinho do falecido, emplastrada, pesada, encharcada de raiva - por quê? por quê? -, seu rosto vermelho e os olhos pequenos, inchados. Meu primo invadiu a sala do velório, ignorando a tudo e a todos, inclusive a mãe do menino morto que estava sentada numa cadeira contra a parede com o rosto branco e roxo ao mesmo tempo - até hoje não sei qual feitiço do luto provocou esse fenômeno -, indo direto ao caixão. 

Meu primo já estava aos prantos quando entrou na sala e a primeira coisa que fez foi pôr as mãos no morto, segurar seu rosto e falar com ele. Foram duas coisas que vi simultâneamente pela primeira vez na vida: uma pessoa viva tocando numa pessoa morta e um homem chorando. Até então eu nunca havia visto um homem chorar e aquilo me tocou profundamente - eu também nunca tinha percebido que nunca vira um homem chorar.

Meu primo me chocou de muitas maneiras naquele dia. Ver seu choro fez com que eu começasse a chorar também. Em silêncio, em resguardo, me parecia uma afronta fazer mais escândalo do que a família do falecido. E, no entanto, ali estava meu primo. Tocando nas mãos do morto, falando com ele e perguntando por quê aquilo tinha que acontecer logo ali, com eles. Meu primo, que não era parente do morto, apenas um vizinho que o viu nascer, crescer, viver. Eu tive vontade de abraçar meu amigo falecido antes que o levassem embora para sempre. Mas permaneci quieta. Fui embora com minha mãe, sem ver o enterro até o final. 

A imagem do meu primo em prantos tocando o corpo do meu amigo me assombra até hoje. Há um misto de carinho e ternura nessa composição que eu não consigo decifrar. O escândalo de um homem, seu choro, a reação imediata frente a única coisa que não podemos reverter. É como se eu tivesse vislumbrado pela primeira vez a existência de um amor fora da esfera do sangue, da família, do ideal romântico. Um afeto que pode ser até maior que a própria morte. 

Quinze anos e muitos outros falecimentos depois, uma das minhas melhores amigas da vida morreu. Eu tinha me mudado do Brasil há apenas três meses e ela faleceu de repente, lá em São Paulo. Semanas depois, um amigo nosso em comum me contou que sonhou com ela. E depois outro também sonhou. E eu senti tanta inveja deles. São seis anos sem a Liane e eu ainda daria tudo para ter um sonho onde a gente pudesse conversar de novo. Eu queria tanto poder ter entrado no velório dela e sacudido seu rosto, queria tanto ter perguntado por quê pessoalmente. Queria ter tocado suas mãos mortas para verificar que era verdade e ficar em prantos, fazer um escândalo, mandar o decoro para puta que pariu.

Essa semana voltei a trabalhar na continuação que escrevi para a minha história Suor e Silício e percebi que absolutamente tudo ali vem das coisas que importam para Liane. Mesmo que o processo não tenha sido consciente, reler o que escrevi no passado me revelou que minha amiga ainda está, de uma forma muito forte, viva dentro de mim. Pode ser que eu não a encontre em meus sonhos, mas eu com certeza a encontro quando estou mais acordada do que nunca: através das palavras.

Você já olhou para a literatura como uma ferramenta de necromancia? As histórias de fantasmas e espíritos me atraem, o fim da existência me assombra e me encanta. Mas a necromancia não está restrita ao gênero de horror. Ela nos presenteia com a capacidade de reavivar nossos queridos que partiram através das nossas mãos. 

Ainda podemos nos voltar para a necromancia com um olhar mais macabro, mais fundo, lembrando que provavelmente a maioria dos autores que tanto eu quanto você já lemos é uma legião de gente morta. E mesmo mortos suas ideias vagueiam por aí, entrando em novas mentes, mudando o jeito que pessoas pensam por todo o tempo em que suas palavras continuem sendo lidas. 

A gente pratica necromancia o tempo todo.

E que comece outubro! Uuuuuh.

Jabás e recomendações

Daqui uns dias vai para a gráfica o livro Veludo & Sangue, da editora Rocket, com contos que homenageiam a autora Anne Rice. Na coletânea, tem um conto meu inédito (Complexo Solar), junto com outros textos de autores talentosíssimos - como André Vianco e J. C. Gray.

Eu ainda estou tentando lidar com a emoção de ver meu nome publicado no mesmo livro que o André Vianco - a Vanessa de 15 anos está surtada. O Vianco foi um dos primeiros autores que me fez pensar ser possível publicar histórias de horror que se passam no Brasil. Acho que foi o primeiro autor brasileiro contemporâneo de histórias de vampiro com quem eu topei na vida e é um prazer imenso fazer parte de uma coletânea de contos ao lado dele.

E se você estiver afim de escutar um papo honesto e delicado sobre morte, o episódio 15 do Incêndio na Escrivaninha é uma boa pedida. É um dos meus favoritos de todas as três temporadas do podcast.

E por hoje é só.

Beijos, abraços e toda forma de afeto.

Vanessa Guedes.
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