Escrever sobre o indizível

& mais Bullet Journal sem Fru-fru

Ah, essa semana. Sete de setembro, onze de setembro.

Espero que essa newsletter encontre você respirando bem e com disposição para desconectar do mundo por pelo menos uns 10 minutinhos.

Aqui você encontra uma reflexão sobre como descrever o indizível. Depois, mais um mini texto sobre Bullet Journal Sem Fru-fru.

Pode ser que algum errinho de digitação ou gramática esteja passando por mim sem ser notado, como sempre, aquele velho atentado ao português. Tá aí o aviso.

Como escrever sobre o indizível?

Uma das mais famosas personagens de Stephen King, Carrie, é conhecida não por ter poderes psíquicos além da nossa compreensão, mas por dar cabo de seus colegas de escola em uma sequência de tortura, sangue e fogo. É o ápice de uma série de agressões e humilhações que eles a submetem, culminando na cena emblemática no momento em que a deixam mais vulnerável.  

Acompanhar a história de Carrie, tanto faz se no livro ou em qualquer uma das adaptações de cinema, é se identificar com seu sofrimento até que ela mesma vira o monstro que estamos esperando se materializar. Quem nunca se sentiu inadequado na escola, no trabalho ou em qualquer outro ambiente de socialização? Quem nunca desejou algum tipo de vingança quando tratado mal ou injustamente?

Acredito que todos nós temos potencial para escrever a história de Carrie. O fundamento do horror descrito ali vem da incapacidade de articulação de uma pessoa que tem todas as suas fraquezas expostas em um ambiente tóxico. 

Em episódios de emoções muito fortes e repentinas, algo se enrola na nossa alma, algo impossível de ser nomeado. Nem sempre temos ferramentas para dar nome ao que acelera ou congela o coração.

Como então seríamos capazes de dizer o que estamos sentindo? 

Carrie faz do indizível uma apoteótica manifestação. Mas não é só com o grotesco e o repentino que se escreve sobre o inexplicável, o imensurável.

A capacidade de descrever o indizível apareceu para mim pela primeira vez lendo Machado de Assis. É uma outra forma de articular o inarticulável através da escrita. (Sim, eu vou de Stephen King a Machado de Assis sem nenhuma vergonha na cara). Para melhor explicar, melhor encarar um exemplo direto.

Vamos olhar para os olhos de ressaca de Capitu.

“Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. [..]. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

(ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Fundação Biblioteca Nacional)

A paixão pode nos inspirar medo, afinal, a atração pelo outro é uma forma de se empenhar num mar desconhecido. O medo curioso e fascinado que Bentinho nutria pelo poder que Capitu exercia sobre ele me parece uma das melhores retratações desse sentimento indescritível de se sentir atraído por alguém. É criar uma dependente expectativa por algo que não faz parte da gente, que é completamente independente. Não temos controle nenhum sobre quem desejamos e nossas fantasias sobre a pessoa são apenas nossas, nada tem a ver com a pessoa real. É como estar à mercê das ondas de um mar revolto, que nos puxa.

Emoções são ótimas fontes para exercer a escrita do indizível. Eu chamava isso de “indiscribilidade”, minha incapacidade de descrever de modo concreto e simples as coisas que me causam uma emoção irracional ou me despertam sentimentos contraditórios. É aqui que as metáforas brilham. Existem poucas coisas mais significativas do que ler em um livro a descrição de algo que sinto, mas que nunca consegui articular sozinha.

I wanna taste your fear

O medo é sempre um bom início para explorar a escrita do indizível. Eu gosto muito de pensar sobre olhar para o escuro quando penso nas histórias de horror que leio. E quando eu falo de escuro, não me refiro apenas à escuridão, à falta de luz, mas qualquer coisa que nos inspire medo indiretamente. O abstrato tomando uma forma concreta na nossa mente. 

Tenho medo de baratas, esses tempos sonhei que ficava amiga de uma e conversávamos a noite inteira sobre a vida, a morte, o amor. Foi a primeira vez que sonhei com um barata sem ser um pesadelo e eu acho que tem a ver com o fato de estar me permitindo olhar para minhas emoções menos racionais e mais profundas com curiosidade, e não com… bem, medo.

E você? O que é indizível para você? Como você descreveria o indizível?

Vamos trocar uma ideia, tomar um café virtual. Você pode responder esse texto diretamente pelo botão ‘responder’ aí no seu email. E se por acaso você está lendo esse texto diretamente no site, clica aqui embaixo para receber a newsletter direto na sua caixa de entrada:

Bullet Journal Sem Fru-Fru: listas intermináveis

Meu maior medo na vida adulta sempre foi olhar a conta do banco. E é uma coisa que a gente precisa fazer mais ou menos todo dia, eu diria. O segundo maior medo que me assombra no dia a dia é a minha lista de afazeres.

Às vezes eu sento na minha mesa no primeiro dia do mês para listar tudo o que vai acontecer nos próximos 30 dias. É assustador. E na maioria das vezes, tenho a sensação de que não sei expressar tudo o que realmente vou acabar fazendo ao longo do mês. É como aquelas listas quilométricas de nomes de anjos e demônios na Divina Comédia.

“Frente a alguma coisa imensa ou desconhecida, sobre a qual ainda não se sabe o suficiente ou não se saberá jamais, o autor nos diz que não é capaz de dizer e, diante disso, propõe um elenco abundante como amostra, deixando ao leitor a tarefa de imaginar o resto.”

(ECO, Umberto. A vertigem das listas. Editora Record. 2010)

O próximo exercício que proponho para quem está se aventurando pelas águas do tal Bullet Journal é assistir esse vídeo, pegar um caderno qualquer (ou até mesmo folhas soltas, foi o que eu fiz por muito tempo) e ir a luta até a próxima newsletter. Eu devo fazer meu próprio passo a passo em breve.

(o vídeo tem legenda em Português).

Daqui para frente, eu devo separar as edições aqui da newsletter sobre Bullet Journal dos outros textos. Vamos ver como rola - esse aqui é meu laboratório de experimentação gratuito, então vamos testando.

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E o fanzine?

Ainda está em produção. Achei que viria nessa newsletter, mas vai ficar para uma futura. Em breve.

Enquanto isso, você pode espiar o primeiro volume do Loucura Funcional nesse link.

Pode até fazer o seu próprio fanzine enquanto isso (se fizer, me manda que vou adorar ler).

Jabás e recomendações

A grande conversa brasileira: desde maio sou aluna desse curso do Alex Castro. Eu precisava de uma base sólida de como a literatura brasileira se desenvolveu para tomar algumas decisões em algumas histórias que estou trabalhando. No desenrolar das aulas temos uma contextualização histórica que acompanha a leitura e as discussões.

O curso passou da metade do conteúdo e agora o valor está mais simpático. As aulas anteriores estão gravadas. Eu recomendo fortemente.

Curso da Aline Valek no Doméstika: quando disparei a primeira edição por aqui, comecei a pesquisar no google sobre como gerenciar essa coisa de newsletter. Encontrei muita gente comentando sobre esse curso da querida Aline, cuja newsletter eu acompanho há uns bons seis ou sete anos já. Estou fazendo as aulas a passo de formiguinha, completando os exercícios com calma, lendo sobre os assuntos que ela traz. A aula da Aline é uma delicinha. Fica a dica.

Incêndio na Escrivaninha: Podcast! Conversamos sobre a década de 2010 com o lindo Samuel Muca. Os papos giraram desde ativismo digital até apps de relacionamento e pistolamos sobre a discussão a respeito do ebook. Sim, somos ebook-lovers e ainda adoramos um bom livro físico - é não-monogamia literária que chama!

E.. Por hoje é só.

Beijos, abraços e toda forma de afeto.

Vanessa Guedes.
(twitter)(instagram)

Sent from my tamagotchi

P.S: dei uma repaginada no meu site pessoal, passa lá para dar uma olhada.