Sair do instagram não mudou minha vida 😭 Me sinto enganada.
Enshittification, Freud e Simone Weil
Poético e patético. A internet roubou o tédio. Nem sou eu quem estou dizendo, até o inventor da rede mundial de computadores viu o apocalipse chegando (mas, diferente de moi, ele ainda está otimista dizendo que ainda há jeito, gente, calma! então sei lá, vamos botar uma fé no homem) e lançou um livro literalmente chamado This is for Everyone, é para todo mundo. Para relembrar a gente do sonho da internet nos anos 2000 e fazer a gente se deprimir ainda mais por ter se vendido por um punhadinho de likes do vale do silício. E, de fato, a internet roubou o tédio. Enquanto transitávamos do analógico para o digital, ainda se ouvia o famoso “mente vazia, oficina do diabo”. Era um momento temido pelas mães: quando o silêncio durava demais, elas vinham verificar o que o tédio havia provocado. Crianças aprontavam. Eram tempos em que nada disso renderia um vídeo para o TikTok, convenhamos. Hoje, o ócio se tornou espetáculo, plastificado em vídeos verticais, prontos para o consumo rápido. As crianças pequenas já pedem para não serem filmadas. É o pior dos tempos, é o melhor dos BBBs.
Retorno ao Tim Berners-Lee e a sua internet para todos.
“Nos últimos anos, junto com toda a criatividade, o empoderamento e a colaboração que eu amo na web, uma pequena, mas expressiva, parte dela - uma forma viciante de mídia social - multiplicou-se em algo confuso, tóxico e formador de hábito. Não poderia estar mais longe do que eu planejei. [...] Para garantir que os agentes da web sirvam as pessoas - não o lucro de empresas, não os governos, não eles mesmos, mas o povo - é crítico desenvolver sistemas que coloquem o ser humano em primeiro lugar.”
Tim Berners-Lee, This is for everyone (tradução minha)
Quando navego pelo instagram, não sinto que o ser humano está em primeiro lugar. Não era nisso em que eu estava pensando quando sai de lá, gostaria de dizer que nada mudou, mas ando recebendo notícias de cunho pessoal direto da boca das pessoas e isso é diferente mesmo. Nascimentos, mortes, doenças, graduações, doutorados, novos e velhos namorados, novos e velhos empregos. Não fico sabendo assim de tantas coisas, claro, mas receber notícias de um modo mais natural, através dos amigos, tem sido um refresco para a alma, parece que está tudo um pouco menos frenético, um pouco menos afetado. Penso nisso quando leio Simone Weil pela primeira vez e ela entra na sala explicando:
“Duas forças reinam no universo: luz e peso. Peso. Em geral, o que esperamos dos outros é determinado pelos efeitos do peso em nós mesmos; o que recebemos dos outros é determinado pelos efeitos do peso neles. Às vezes isso coincide (por acaso), mas normalmente não. Por que, quando um ser humano demonstra que precisa — pouco ou muito — de outro, esse outro se afasta? Peso.”
Simone Weil, O peso e a graça
Largar o instagram, pois bem. Um peso a menos. Pequenos vícios me alfinetam aqui e ali, como a fome em rolar rolar e rolar uma tela sem propósito nenhum. Naveguei muito por sites de compra, pinterest, unsplash e também li muitos artigos aleatórios na wikipedia. O peso desse estímulo cognitivo tem sido menos carregado do que os apps que eles substituem (instagram, tiktok, twitter etc). De fato, há menos ansiedade. Em movimentos de aproximação e distanciamento, novos ritmos tomaram as amizades. Principalmente as mais longas, mais complicadas. Diferentes pesos e até mesmo diferentes medidas. Tem produzido um efeito de abrir espaço para o novo, um movimento de elasticidade que me agrada. Mas nem tudo são flores. Eu havia apostado comigo mesma que leria mais newsletters, mas li muito menos. Há mais gente e mais gente acredita que precisa publicar religiosamente uma ou duas vezes por semana, a caixa de entrada está soterrada e eu tenho sentido mais angústia do que felicidade de ver as newsletters chegando. Enshittification.
Não é nada pessoal, é só uma saturação meio fim dos tempos, está fadado a acontecer com tudo o que a gente gosta na internet. A primeira leitura do ano aqui foi o famoso Enshittification, do Cory Doctorow, que caiu na boca do povo brasileiro. Um dos tópicos abordados no livro é a “disciplina da auto-ajuda”, explicando o fenômeno em que indivíduos cada vez mais se responsabilizam por resolver seus problemas sozinhos - problemas esses que, na verdade, são de cunho coletivo, como moradia, educação, saúde e segurança. Nesse contexto, ele explica como a arquitetura dos computadores reflete essa lógica também. Via de regra, computadores são dispositivos universais e, teoricamente, qualquer computador pode rodar um programa criado por outro computador. Assim, cada máquina acaba sendo um agente responsável por adaptar e proteger seus sistema e interesses continuamente. Empresas, como Microsoft e Apple, passaram então a oferecer essa segurança e adaptação que os computadores precisavam. Em troca, o usuário aceitava limitar o uso do computador para apenas os recursos oferecidos por essas empresas. Pense no Windows. Ou no seu celular com Android ou iOS, esse princípio está em todos os lugares. Pense na Meta controlando Facebook, Whatsapp e Instagram. Os apps fazem parte de sistemas e no momento em que aceitamos transitar em um sistema, estamos reféns do uso dos serviços que ele oferece. O processo de degradação desses serviços se dá à dependência das pessoas desses sistemas limitantes. Esta é a origem do processo de enshitificação.
Cory Doctorow resume esse processo da seguinte maneira (tradução do Chris Dias no artigo Enshittification: quando as plataformas viram a cebola do Outback):
É assim que as plataformas morrem: primeiro, elas tratam bem os usuários; depois, passam a abusar dos usuários para agradar aos clientes corporativos; por fim, abusam desses clientes corporativos para sugar todo o valor só pra elas. E então, morrem.
Se você forçar a barra só um pouquinho, pode fazer um paralelo perfeito com O Mal-Estar na Civilização, do Freud. Neste pequeno ensaio, ele vai explicar que trocamos o nosso instinto primitivo por abrigo, pois vivendo em sociedade nos protegemos melhor do resto do mundo. Mas para desfrutar deste abrigo, temos que viver sob as regras do grupo. Esse abrigo da qual ele fala é a civilização. “O homem civilizado trocou um tanto de felicidade por um tanto de segurança”, diz ele. O internauta trocou um tanto de liberdade por um tanto de conveniência. O charme e a facilidade em usar interfaces amigáveis e acessíveis fez com que entrássemos cada vez mais e mais em ecossistemas digitais geridos por tech bros. E essas empresas, as big techs, hoje tem o peso de instituições, algo tipo poder executivo, legislativo, judiciário e digital; as plataformas viram sinônimo de civilização. De sociedade. O peso que exercemos uns sobre os outros, esse peso influenciador da qual Simone Weil fala, não é nada comparado ao peso que a sociedade exerce sobre cada indivíduo. E nisso Freud entra com explicações ao apontar que o nosso maior medo, o medo primordial, é o medo da autoridade.
“Originalmente a renúncia ao instinto é resultado do medo à autoridade externa; renuncia-se a satisfações para não perder o seu amor. Tendo feito essa renúncia, estamos quites com ela, por assim dizer; não deveria restar sentimento de culpa.”
Freud, O Mal-estar na Civilização
Se considerarmos as redes sociais (gostaria mesmo de chamá-las de plataformas sociais) como uma autoridade, agradar a essa autoridade parece muito como aquela frase comum dos influenciadores, quando dizem que vão “agradar ao algoritmo”. Ou quando você diz que treina o algoritmo. Existe a falsa ideia de que você controla um aplicativo, mas quem decide o que aparece é a empresa que o criou, não você. Embora pareça que sistemas automatizados ou digitais, como qualquer coisa que vive em uma tela, sejam sempre neutros, limpos e livres de influências, na verdade, o processo por trás deles não tem regras claras e costuma provocar um efeito de autoridade sobre o usuário comum. Esse é o peso entre pessoa e aplicativo; não é uma relação de igual para igual. Quando o ser humano bate o olho num sistema digital, o sistema automaticamente assume a forma de autoridade aos olhos do usuário. É difícil acreditar que esse pensamento não afeta as pessoas. Da mesma forma, o número de seguidores que alguém pode alcançar nas redes sociais também tem impacto, e assim pessoas também se tornam autoridade. O número de seguidores no instagram virou régua de popularidade, medida de sucesso e símbolo de status. Além disso, o Brasil parece ter uma relação especial com as redes; um dos maiores impactos que percebo ao assistir TV brasileira é que geralmente anunciam quantos seguidores as pessoas tem, quantas visualizações tal vídeo obteve etc. Essas coisas causam um impacto social. O maior efeito de sair do Instagram foi, depois de dez anos longe, finalmente me sentir distante do país. Não era algo que eu queria; aconteceu. Só que estar fora do sistema instagram é também uma resposta a autoridade; e na civilização, quem rompe com a autoridade sofre consequências. Para mim, esse peso veio como um distanciamento meio dolorido, mas necessário. Quando senti o peso dessa distância, minha reação foi escrever textos reativos, reclamando, meio como Cassandra das ideias; a tragédia, a visão. Pega a visão. E nisso, novamente me encontrei na Weil:
“Várias vezes, nesse estado, acabei cedendo à tentação de dizer palavras ofensivas. Obediência ao peso. O maior pecado. Corrompemos, assim, a função da linguagem, que é expressar as relações das coisas.”
Simone Weil, O peso e a graça
Há dois anos sofri uma pequena hostilização no Notes, a rede social do Substack, plataforma por onde publico meus textos. Nunca comentei a situação publicamente, mas o pequeno barraco foi relativamente público. Não foi o confronto, mas o desfecho da conversa privada com a pessoa que originou tudo, que me deixou amarga. O peso da palavra do outro é puro fardo sobre a gente. Depois de concluir que concordávamos no principal, no fomento ao conhecimento e à leitura, a pessoa ainda assim escolheu manter a hostilidade. Não havia nada mais a fazer. Aquilo acabou comigo por um tempo, foi o choque de entender na própria pele que não importa o que eu escrevo, mas sim a mensagem que a outra pessoa capta e o sentimento que provoco nela. O peso.
“É impossível perdoar a quem nos fez mal, se esse mal nos rebaixa. Devemos pensar que ele não nos rebaixou, mas que revelou nosso verdadeiro nível. Desejo de ver os outros sofrerem exatamente aquilo que sofremos. É por isso que, salvo nos períodos de instabilidade social, os rancores dos miseráveis se voltam para seus semelhantes. Esse é um fator de estabilidade social.”
Simone Weil, O peso e a graça
Sair do instagram não mudou minha vida. Mas removeu um senso de urgência que me fazia sentir maior do que realmente sou. Diminuiu a ansiedade, sem dúvidas. A primeira razão para afastar-me do instagram foi o potencial para a hostilidade. Algo em mim quebrou depois da pequena treta. Embora o que aconteceu comigo não tenha rolado ali, mas no Notes, eu senti que estava vulnerável em todas as frentes. Perdi um pedaço enorme de algo muito denso, muito profundo. Desse buraco surgiu um espaço vazio. E ao invés de tentar preencher o nada, escutei Weil: “devemos querer no vazio, querer o vazio”. Foi nesse descobrimento do vazio que o desejo, a FOMO, diminuiu. Ao me perguntar o que estar ali nas redes sociais representa, descobri que perdi o desejo de estar. Mas então, o que estar online passou a não ser?
Divago.
Por hoje é só.
Beijos, abraços e toda forma de afeto.
Vanessa Guedes.
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Acho que nem dá mais pra chamar isso de "rede social". Eu entrei esperando manter contato com meus amigos, mas elas não me mostram mais os perfis que sigo. Devíamos chamar esses espaços de plataformas de marketing. Primeiro pq não é mais social; segundo, e relacionado com o primeiro, pq até a postagem individual cotidiana está sendo regida por quantificadores e métricas de desempenho pra "entrega" ser maior ou menor. Faz tempo que essas plataformas deixaram de ser para pessoas e passaram a ser para produtos.
Sair do Instagram pra mim ultimamente é um grande risco pro meu trabalho. Quando fico uns dias ausente já sinto a diferença. Sendo assim, como li aqui nos comentários e reforço, vejo o Instagram como uma grande feira onde estamos nos vendendo e os compradores estão olhando. É triste, mas ter esse olhar tira toda ilusão de que pode ser uma rede de conexão e tenho um olhar mais frio que faz parte de literalmente o ganha-pão meu e de muita gente que conheço, inclusive. No mais, fiquei cheia de vontade de ler esse livro da Simone!