O medo da autoficção

Olá.

Estou mandando a newsletter número 5 enquanto o segundo volume do fanzine Loucura Funcional está em produção. Deve vir na próxima newsletter.

Aviso aos navegantes: às vezes alguns errinhos de digitação passam na minha revisão aqui, então já peço desculpa de antemão por assassinar nossa língua portuguesa ocasionalmente.

Lembrete: Segredos em Órbita é uma newsletter sobre segredos. As perguntas-tabu, aquilo que eu tenho medo de explorar ou de admitir e perturbações que orbitam minha cabeça, me deixando sem resposta.

Quem tem medo de autoficção?

Eu. 

Houve um momento no início da minha vida adulta em que fui aluna em muitas aulas de escrita criativa. Muitas mesmo. O que mais me surpreendia nas outras pessoas que frequentavam essas oficinas comigo, era que a maioria delas estava escrevendo coisas muito próximas de experiências que elas viveram. Arrisco dizer que a principal motivação para a escrita delas era elaborar um testemunho sobre as próprias vivências. Mesmo nas histórias de ficção, se usava muito material da vida, de cunho testemunhal ou confessionário, ao ponto de ser levemente constrangedor em alguns casos. Geralmente, a vergonha das pessoas em exporem seus escritos para os colegas não vinha de um medo do que achariam do seu estilo, estrutura de prosa, ou algo mais técnico, mas sim da exposição da própria intimidade. Principalmente com alunos que estavam escrevendo há muito pouco tempo.

Eu sentia uma confusão entre o conceito de usar a vida para fazer ficção e fazer ficção da vida. Mas apesar disso, a autoficção é um gênero literário. O problema, para mim, é quando obras que não são lançadas como autoficção acabam sendo lidas ou criticadas como tal.

Como mulher, não posso deixar de apontar que muita literatura feminina é lida como autoficção sem que a autora necessariamente classifique o próprio trabalho assim - e não, não é apenas o caso das ‘chick lits’, típicos romances leves que retratam as mazelas e conflitos da vida de mulheres adultas mesclando humor e drama, que são frequentemente apontadas como obras de autoficção. Para pensar em autoras recentes, das brasileiras, lembro da cabeça da Mayra Dias Gomes no início da carreira e da Clara Averbuck, por exemplo.

Além disso, se confunde muito autoficção com autobiografia, principalmente aqueles escritos por minorias.

A diferença entre autobiografia e autoficção vem de um acordo invisível entre autor e leitor. Na primeira, é estabelecido que o texto é uma via de mão única: a autobiografia conta o que aconteceu com alguém de carne e osso, levantando a verdade da memória, a confissão da vivência real dessa pessoa. Autobiografia também é coisa de gente famosa, importante. Já na segunda, autoficção é uma via de mão dupla; cria uma história fictícia usando o acordo da verdade autobiográfica. A licença poética dá espaço para gente anônima se tornar interessante. É confuso, por isso, um assunto que dá pano pra manga.

“A ambiguidade criada textualmente na cabeça do leitor é característica fundamental de uma autoficção. Há um jogo de ambiguidade referencial (é ou não é o autor?) e de fatos (é verdade ou não? Aconteceu mesmo ou foi inventado?) estabelecido intencionalmente pelo autor. Não há dúvidas de que antes do neologismo autores já criavam esse pacto contraditório de leitura, sem ter um termo que o nomeasse; apesar de ser menos frequente no passado, o exercício autoficcional é anterior à sua formulação conceitual.”

(FAEDRICH, Ana. O conceito de autoficção: demarcações a partir da literatura brasileira contemporânea. Universidade Federal Fluminense. 2015)

Na edição passada do Loucura Funcional, eu falei um pouco do conceito de morte do autor do Barthes. Quando o eu que escreve passa por uma morte simbólica para virar a voz narrativa e, assim, executar sua performance através das palavras. 

O autor é um artista, e tal qual uma atriz ou uma pintora, eleva sua experiência emocional para explorar novas formas de expressão e contar histórias. 

Quando a gente começa a pensar muito sobre o que diabos é essa tal de autoficção, é fácil chegar a conclusão de que (se qualquer vivência pode inspirar ou formar ficção) talvez qualquer obra seja autoficção. E, se tudo é autoficção, nada é autoficção. 

“Eu não vim aqui para explicar, eu vim aqui para confundir.”

(CHACRINHA)

Brincadeira. Mas é impossível não ver que existem obras com muito mais potencial para apontarem autoficção do que outras. Eu acredito que quanto mais parecido com o autor for o protagonista, por exemplo, mais fácil é fazer essa associação de identidade. Só para citar um exemplo fácil.

É como se a autoficção não fosse apenas um gênero, mas também um marcador de autenticidade ou denúncia. Acho que o xabu fica mais aparente quando a confusão chega nas questões identitárias, só para citar uma discussão mais recente.

Mas e você?

Como você viu isso nos últimos livros que leu?

E se você for uma pessoa que escreve ficção, o que você pensa sobre essas inspirações autobiográficas na hora de escrever? É um processo consciente?

Vamos tomar um café, trocar uma ideia.

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Jabás e recomendações

Eu tenho uma história de horror erótico publicada na Amazon, que você pode encontrar aqui. Se chama Gênese de um Corpo Quente e toda a piração que você leu acima veio de uma pergunta que uma pessoa próxima fez sobre esse meu conto.

Enquanto isso, no Incêndio na Escrivaninha, converso sobre a década de 2000 com meus colegas de mesa, Ana Rusche e Thiago Ambrósio Lage.

E se você ficou mais curioso com o tema da autoficção, tem um artigo muito interessante no El País, Cansados do eu? A autoficção mostra sinais de fadiga, que inclusive cita um autor de autoficção que gosto muito, o Enrique Vila-Matas.

Por hoje é só.

Beijos, abraços e toda forma de afeto.

Vanessa Guedes.
(twitter)(instagram)

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