O amor exige criatividade
O detox das fórmulas em uma reflexão BEM pessoal
TEMPO DE LEITURA: 6 MINUTOS.
(Esse é o título mais brega dessa newsletter.)
Semana passada, falei sobre robôs e não-monogamia. Hoje vai um texto mais intimista, onde uso uma inquietação pessoal e penso nela como uma questão coletiva. Porque não há problema pessoal no mundo que não seja uma questão coletiva.
Vou, mais uma vez, me debruçar sobre o amor.
As pessoas querem ser criativas, mas tem medo de criar. Há uma certa abundância de fórmulas para fomentar a criatividade hoje, e ainda sim a procura por “como ser mais criativo” permanece firme e forte. Penso muito nessa crise quando converso sobre amor com meus amigos, suas frustrações amorosas constantes e a impossibilidade que todo mundo sente em criar seus próprios caminhos para o afeto. É como se tivéssemos sido alimentados, a vida toda, de uma receita única de como o amor deve acontecer. Mas se desejamos viver algo diferente, talvez seja necessário um grande detox das fórmulas de amor que aprendemos.
Nisso, também penso muito em uma coisa que o veganismo me ensinou: não dá para esperar o sabor de um hambúrguer de carne vermelha quando estou comendo um hambúrguer vegano. Parece ridículo de tão simples, mas é isso que a maioria das pessoas faz quando experimenta um novo prato: procura sentir o sabor conhecido. Aquilo que ela tem como referência de algo bom e saboroso. Se eu tivesse me apegado a essa procura, essa busca pelos sabores conhecidos, talvez eu fosse uma vegana infeliz. Talvez eu nunca tivesse me aberto a experimentar aqueles que tornaram-se meus hambúrgueres preferidos (grão-de-bico e lentilha, respectivamente) e até hoje estivesse gastando fortunas em busca do hambúrguer de laboratório mais parecido com carne possível. De certa forma, o veganismo faz a gente olhar para coisas simples, como refeições, de formas totalmente diferentes. E esse olhar sozinho já exige uma abertura que leva, invariavelmente, a um caminho criativo. Não necessariamente um criativo ativo, que vai realmente inventar coisas do zero. Mas um criativo passivo também, que observa o mundo com curiosidade, que se intriga com as coisas e se abre para caminhos novos. Acredito que nessa criatividade passiva mora, também, uma nota sobre como construir o amor.
As pessoas querem ser amadas, mas tem medo de amar. Porque o amor é posto como entrega cega, como uma devoção, de tal maneira que se não estivermos totalmente entregues e absorvidos pelo amor, não era amor, era cilada. Nessas e outras, a gente vai se jogando em armadilhas de idealização do amor. Como se ele fosse vivido quase que exclusivamente dentro da gente, e não compartilhado. Eu estava conversando hoje com uma amiga psicóloga sobre relacionamentos à distância e a construção do amor nesse tipo tão difícil de envolvimento. E ela me apontou duas coisas imensas sobre isso: 1) a distância exige mais comunicação, mais elaboração e mais investimento intelectual das partes envolvidas, consequentemente é como bell hooks fala, que o amor é construção, e a distância permite essa construção com um afinco mais elaborado verbalmente, pois a comunicação por palavras preenche todos os lugares, inclusive o toque e a presença física, dando conta de muito mais elementos do que uma relação presencial exige, e 2) tornar a pessoa amada conhecida por outras pessoas que amamos (seja família, amigos ou mesmo nossos outros afetos) é importante para tirar a relação de um simulacro, onde a gente corre o risco de ficar com a sensação de que a pessoa só existe na nossa cabeça. Eu acrescento aqui um número 3, de que uma relação a distância tem tudo para criar expectativas inatingíveis, ou mesmo fantasias elaboradas que dificilmente se concretizarão. Porém sempre há a opção de não se jogar à própria fantasia, mas de usar a oportunidade para uma escuta ativa. Se a parte verbal é tão intensa, quer dizer que o outro está constantemente se comunicando. Talvez essa seja a alternativa à fantasia pura. Escutar, prestar atenção… exercer a criatividade passiva. Olhar o outro com interesse pelo outro, e não procurando as coisas já conhecidas ou as coisas que queremos ver. Eu estou falando de relacionamento à distância e, ainda sim, sinto que isso serve para qualquer construção amorosa. Não apenas a romântica, seja ela presencial ou não.
Depois de conversar com a amiga, fui dar uma olhada nas minhas notas de leitura no livro da bell hooks sobre o amor. E me deparei com outra questão relevante e reveladora. Em determinada parte, ela diz que mulheres que falam de amor são suspeitas. E explica assim:
“Homens que escrevem sobre o amor sempre atestam que foram amados. Eles falam a partir desse lugar, isso lhes confere autoridade. Mulheres, com frequência, falam de um lugar de falta, de não terem recebido o amor que desejavam.
Uma mulher que fala de amor é suspeita. Talvez isso ocorra porque tudo que uma mulher esclarecida teria a dizer sobre o amor representaria uma ameaça direta e um desafio às visões que nos foram oferecidas pelos homens.”
bell hooks em Tudo sobre o amor.
Se o olhar intelectualizado de uma mulher para o amor parece uma ameaça, acho que é nesse olhar mesmo que pode morar uma resposta para quem não se sente amada. Se o mundo patriarcal tem medo da mulher que pensa sobre o amor, eu tenho vontade de ouvi-la. Sentir falta do amor é um buraco, um vazio, e nós sabemos que os vazios são lugares que, na tristeza, tentamos preencher com qualquer coisa.
Quando conecto criatividade com amor, parto da ideia de que ambos parecem muito escassos hoje. Nas redes sociais é possível encontrar fórmulas para conseguir ambos, mas a escassez continua independente de quantos cursos a gente possa se inscrever para aprender a ser criativo ou conseguir o amor idealizado. Não seria isso uma pista para entender que cada um de nós precisa aprender as próprias ferramentas para desfrutar de uma vida criativa e amorosa? E que isso exige estarmos abertos a experimentar o novo? A nos desprender da idealização e escutar o mundo?
“Para abrirmos nosso coração mais plenamente para o poder e a graça do amor, devemos ousar reconhecer quão pouco sabemos sobre ele na teoria e na prática. Devemos encarar a confusão e a decepção em relação ao fato de que muito do que nos foi ensinado a respeito da natureza do amor não faz sentido quando aplicado à vida cotidiana.”
bell hooks em Tudo sobre o amor.
Satélite de recomendações
Esse texto foi mais um da série trimestral sobre: amor, corpo, tecnologia e trabalho.
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Para ler alguns dos anteriores:
Trabalho: Burnout na era da positividade
Amor: E o amor?
Tecnologia: Na internet, tudo é cópia
Por hoje é só.
Beijos, abraços e toda forma de afeto.
Vanessa Guedes.
Quem segue na fórmula, não necessariamente busca/encontra amor. Talvez, inconscientemente, busque pertencimento, aprovação externa. Diria que desfazer das fórmulas é urgente para quem quer encontrar amor. 💖 obrigada pelas reflexões maravilhosas!
exercer a criatividade é lindo, pois tb é sair um pouco de si, sem sair, e prestar atenção em outras pessoas. adorei a news!